Quando proponho uma cirurgia robótica para o tratamento do cancro da próstata, é natural que surjam dúvidas sobre o que acontece durante a intervenção. Onde está o médico? Como são controlados os instrumentos? Para que serve o robot e de que forma pode ajudar numa cirurgia realizada numa zona tão complexa?
Compreender estes aspectos ajuda-o a perceber melhor o tratamento e a criar expectativas mais realistas. Ao longo deste artigo, explico como funciona a tecnologia, como é realizada a cirurgia e o que avaliamos antes de a recomendar.
Neste artigo, encontra as respostas às seguintes questões:
- O que é a cirurgia robótica da próstata e como funciona;
- Como é realizada uma prostatectomia radical assistida por robot;
- Em que situações esta cirurgia pode ser recomendada.
Resumo rápido: na cirurgia robótica da próstata, o cirurgião controla, a partir de uma consola, instrumentos introduzidos no abdómen através de pequenas incisões. O sistema fornece uma imagem ampliada em três dimensões e reproduz os movimentos das mãos do médico com elevado rigor. Quando está indicada uma prostatectomia radical, a próstata é removida e a ligação entre a bexiga e a uretra é reconstruída.
O que é a cirurgia robótica da próstata?

No tratamento do cancro da próstata, é utilizada sobretudo para realizar uma prostatectomia radical assistida por robot.
Nesta intervenção, são removidas a próstata e as vesículas seminais. Em determinadas situações, também pode ser necessário retirar alguns gânglios linfáticos próximos.
A expressão “minimamente invasiva” refere-se à forma como acedemos ao interior do corpo. Em vez de uma incisão abdominal extensa, são realizadas pequenas incisões para introduzir a câmara e os instrumentos cirúrgicos.
Isto não significa, de todo, que seja uma cirurgia simples. Trata-se de uma cirurgia complexa. A próstata encontra-se numa zona profunda e reduzida da bacia, muito próxima:
- da bexiga;
- da uretra;
- do recto;
- do esfíncter urinário;
- dos feixes neurovasculares relacionados com a erecção.
Nas minhas consultas, explico que o valor da cirurgia robótica está precisamente na possibilidade de trabalhar nesta região com uma imagem ampliada e instrumentos capazes de executar movimentos muito controlados. Mas é a maior ou menor capacidade técnica e experiência do cirurgião que faz a diferença, não o robot. Não é o robot que opera.
Onde estou durante a cirurgia e quem controla o robot?
Durante a cirurgia, permaneço na mesma sala operatória, sentado numa consola instalada a pouca distância do doente.
A partir dessa consola:
- observo o campo cirúrgico em três dimensões;
- controlo os instrumentos com as mãos e os pés;
- acompanho cada etapa da intervenção em articulação com a equipa junto ao doente.
Cada movimento que faço é reproduzido pelo sistema no interior do corpo. Se eu parar, os instrumentos também param.
O robot não escolhe onde cortar, não identifica sozinho o tumor a próstata e outros orgãos e não decide que estruturas devem ser preservadas. Todas essas decisões são minhas.
É uma dúvida muito comum em consulta. Por isso, explico sempre que a tecnologia aumenta a precisão, mas o controlo da cirurgia permanece, em todos os momentos, nas mãos do cirurgião.
Como é que a câmara e os instrumentos entram no corpo?
A cirurgia é realizada através de pequenas incisões no abdómen. Por essas aberturas, introduzimos:
- a câmara que transmite a imagem do interior do corpo;
- os instrumentos ligados aos braços do sistema robótico;
- os dispositivos utilizados pela equipa junto à mesa operatória.
Com estes instrumentos, consigo separar tecidos, controlar vasos sanguíneos e realizar suturas. No final, a próstata é removida através de uma das incisões.
Ainda assim, faço uma distinção importante: pequenas incisões não significam uma pequena cirurgia. A prostatectomia radical continua a ser uma intervenção complexa, que exige conhecimento anatómico e decisões rigorosas.
Para que serve a imagem ampliada em três dimensões?
A câmara do sistema robótico permite-me observar o campo operatório com uma imagem ampliada e tridimensional.
Numa região tão reduzida, alguns milímetros separam o tecido que deve ser removido das estruturas que procuramos preservar. Esta visualização ajuda-me a:
- avaliar melhor a profundidade;
- distinguir os diferentes planos anatómicos;
- identificar pequenos vasos;
- reconhecer os limites entre os tecidos;
- realizar suturas com maior controlo.
Antes da cirurgia, avalio a ressonância, a localização do tumor e o risco de a doença ultrapassar a próstata. Durante a intervenção, cruzo essa informação com o que observo.
A imagem 3D não toma decisões por mim. Permite-me aplicar o meu conhecimento anatómico e a minha experiência com maior detalhe.
Saiba mais sobre a cirurgia robótica da próstata
Como é realizada uma prostatectomia robótica?
A intervenção é adaptada às características de cada doente, mas inclui geralmente:
- preparação e anestesia geral;
- desinfecção do campo operatório;
- realização das pequenas incisões;
- introdução da câmara e dos instrumentos;
- Identificação da próstata;
- dissecção e separação da próstata das estruturas envolventes;
- remoção da próstata e das vesículas seminais;
- remoção de gânglios, quando indicada;
- reconstrução da ligação entre a bexiga e a uretra;
- colocação temporária de uma algália.
Depois de remover a próstata, volto a unir a bexiga à uretra. A algália permanece colocada enquanto esta ligação cicatriza.
O que procuro preservar durante a cirurgia?
O primeiro objectivo é remover a próstata e o tumor com segurança. Ao mesmo tempo, procuro preservar, sempre que a doença o permite:
- o esfíncter relacionado com a continência;
- os feixes neurovasculares envolvidos na erecção;
- os tecidos de suporte da bexiga e da uretra;
- os órgãos próximos.
Os nervos relacionados com a erecção passam muito perto da próstata. Quando o tumor está suficientemente afastado, pode ser possível realizar uma cirurgia com preservação nervosa.
Nas minhas consultas, gosto de esclarecer que esta decisão depende da localização e da extensão da doença. Preservar os nervos é importante, mas a prioridade continua a ser remover o tumor de forma adequada.
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Como é a recuperação após a cirurgia robótica?

Depois da intervenção, o paciente permanece internado durante o período necessário para acompanhar a recuperação inicial.
A mobilização começa geralmente cedo. Levantar-se e caminhar, seguindo as indicações da equipa, ajuda a reduzir alguns dos riscos do pós-operatório.
Nos primeiros dias, pode sentir:
- desconforto abdominal;
- cansaço;
- algum inchaço;
- incómodo relacionado com a algália.
O regresso ao trabalho e à actividade física deve ser progressivo e depende do esforço que realiza no dia-a-dia.
Após a remoção da algália, podem surgir perdas de urina. A continência tende a recuperar gradualmente, embora o tempo varie entre doentes.
A função eréctil também pode demorar a recuperar, mesmo quando foi possível preservar os nervos. A idade, a função sexual anterior e a saúde vascular influenciam este processo. Por vezes, pode demorar 12 a 18 meses a recuperar a erecção.
No acompanhamento, avaliamos ainda o PSA, que deverá tornar-se indetectável após a remoção da próstata.
Em que situações pode ser recomendada?
A cirurgia robótica pode ser considerada quando existe indicação para remover a próstata, nomeadamente em determinados casos de cancro localizado agressivo ou localmente avançado.
A decisão depende de factores como:
- Tipo de tumor, risco e extensão da doença;
- Idade e do estado geral de saúde;
- Esperança de vida;
- Função urinária e sexual anterior;
- Alternativas disponíveis.
No Instituto da Próstata, a indicação para cirurgia vem antes da escolha da tecnologia.
Primeiro, avaliamos se remover a próstata é a estratégia mais adequada para controlar a doença. Depois, analisamos como realizar a intervenção de forma segura e adaptada ao seu caso.
O robot é uma ferramenta avançada. O seu valor depende da experiência do cirurgião, da selecção adequada do doente e das decisões tomadas em cada etapa para tratar o tumor e preservar, tanto quanto possível, a continência e a função sexual.
Tem dúvidas sobre o diagnóstico ou tratamento? Faça uma avaliação especializada no Instituto da Próstata.
Referências
European Association of Urology. Guidelines on Prostate Cancer: Treatment and Follow-up.
National Cancer Institute. Definition of robotic laparoscopic radical prostatectomy.
Huynh LM, et al. Robot-Assisted Radical Prostatectomy: A Step-by-Step Guide.
Liu S, et al. Techniques of robotic radical prostatectomy for the management of prostate cancer.
Rha KH. Robot-Assisted Laparoscopic Radical Prostatectomy.

