Cancro da próstata: cirurgia robótica, laparoscópica ou aberta?

Atualizado a 2 de Setembro de 2026

Se as três técnicas permitem remover a próstata, o que muda realmente entre uma cirurgia aberta, laparoscópica e robótica?

Esta é uma dúvida frequente quando proponho uma prostatectomia radical. Para o doente, a escolha parece muitas vezes resumir-se ao tamanho das incisões. Na prática, também existem diferenças na forma como observo a anatomia, movimento os instrumentos e trabalho junto das estruturas relacionadas com a continência e a função sexual.

Neste artigo, explico:

  • O que distingue a cirurgia aberta, laparoscópica e robótica;
  • Que diferenças pode sentir durante a recuperação;
  • Como cada técnica pode influenciar a continência e a função sexual;
  • Porque a experiência da equipa continua a ser determinante.

Resumo rápido: a cirurgia aberta utiliza uma incisão maior, enquanto a laparoscopia e a cirurgia robótica são realizadas através de pequenas incisões. A cirurgia robótica acrescenta visão tridimensional ampliada e instrumentos articulados. Os estudos associam esta abordagem a menor perda de sangue e internamentos mais curtos, embora os resultados da continência e da função sexual dependam também da experiência da equipa e das características de cada doente. 

O que distingue as técnicas cirúrgicas no cancro da próstata?

O objectivo principal é comum: remover a próstata e o tumor de forma adequada, quando existe indicação para uma prostatectomia radical.

O que muda é a forma como acedemos à próstata e realizamos a intervenção.

Cirurgia aberta da próstata

Na cirurgia aberta, o acesso é efectuado através de uma incisão no abdómen inferior.

O cirurgião trabalha directamente através dessa abertura, utilizando instrumentos convencionais e observando a anatomia sem o apoio de uma câmara endoscópica.

Por exigir uma incisão maior, esta abordagem pode estar associada a:

  • maior agressão da parede abdominal;
  • maior perda de sangue;
  • mais dor nos primeiros dias;
  • recuperação inicial mais prolongada.

Ainda assim, continua a ser uma técnica válida e pode proporcionar bons resultados quando realizada por uma equipa experiente. Os estudos comparativos não demonstram que a via robótica seja universalmente superior à cirurgia aberta em todos os resultados funcionais ou oncológicos.

Saiba mais sobre cirurgia aberta 

Cirurgia laparoscópica da próstata

A prostatectomia laparoscópica é realizada através de pequenas incisões no abdómen.

Por essas aberturas, são introduzidos uma câmara e instrumentos longos. A imagem do interior do corpo é apresentada num monitor, permitindo realizar a cirurgia sem uma incisão abdominal extensa.

A laparoscopia exige uma elevada capacidade técnica. Os instrumentos são rígidos e têm uma amplitude de movimentos mais limitada do que a mão humana ou os instrumentos articulados do sistema robótico.

Na minha prática, esta diferença torna-se particularmente relevante quando trabalhamos numa zona profunda da bacia, onde alguns movimentos precisam de ser realizados com grande precisão.

Saiba mais sobre laparoscopia 

Cirurgia robótica da próstata

A cirurgia robótica também utiliza pequenas incisões. A principal diferença está na tecnologia disponível para observar e operar.

O sistema fornece:

  • imagem ampliada em três dimensões;
  • instrumentos articulados;
  • maior amplitude de movimentos;
  • filtragem de pequenas oscilações involuntárias;
  • controlo dos instrumentos através de uma consola.

Sou eu quem realiza e controla cada movimento. O robot funciona como uma extensão das minhas mãos e não toma decisões de forma autónoma.

No artigo “Cirurgia robótica da próstata: o que é, como funciona e como é realizada”, explico em detalhe onde se encontra o cirurgião, como entram os instrumentos e para que serve a imagem tridimensional.

Saiba mais sobre cirurgia robótica 

O que muda após a cirurgia ao cancro da próstata? 

Que Diferencas Apos Cada Cirurgia Robotica Laparoscopica Ou Aberta Quais Sao As Diferencas Instituto Da Prostata

A cirurgia laparoscópica e a cirurgia robótica são ambas minimamente invasivas, pois utilizam pequenas incisões. Na abordagem robótica, a imagem tridimensional e os instrumentos articulados permitem-me trabalhar com maior liberdade e controlo numa zona anatómica reduzida.

Estas vantagens técnicas tornam-se mais relevantes durante a recuperação e quando procuro preservar as estruturas relacionadas com a continência e a função sexual.

Recuperação após a cirurgia ao cancro da próstata

Comparativamente com a cirurgia aberta, as técnicas minimamente invasivas estão associadas a:

  • menor perda de sangue;
  • menor necessidade de transfusão;
  • menos dor nos primeiros dias;
  • internamentos geralmente mais curtos;
  • regresso mais rápido às actividades habituais.

Uma revisão de estudos prospectivos concluiu que a cirurgia robótica e a laparoscopia apresentam menor perda de sangue e menor necessidade de transfusão do que a cirurgia aberta. Os resultados oncológicos e as taxas globais de complicações foram, contudo, semelhantes entre as abordagens.

Na consulta, explico que estas diferenças se referem sobretudo à recuperação inicial. O tempo de internamento, de algaliação e de regresso ao trabalho depende também da extensão da cirurgia, do estado geral de saúde e do esforço que realiza no dia-a-dia.

Recuperação da continência urinária

A tecnologia robótica pode ajudar-me a trabalhar com maior precisão junto do esfíncter urinário e dos tecidos que suportam a uretra.

Num ensaio clínico aleatorizado, os doentes submetidos a cirurgia robótica apresentaram uma recuperação da continência mais favorável aos três meses do que os operados por laparoscopia convencional. A idade e a possibilidade de preservar os nervos também influenciaram os resultados.

Quando a comparação é feita com a cirurgia aberta, as diferenças tornam-se menos evidentes ao longo do tempo. Num ensaio clínico aleatorizado com 326 homens, não foram encontradas diferenças significativas na função urinária entre a cirurgia robótica e a cirurgia aberta aos 24 meses. 

Por isso, apresento a cirurgia robótica como uma técnica que pode favorecer uma recuperação inicial mais rápida, e não como uma garantia de continência imediata.

Recuperação da função sexual

A imagem ampliada e a precisão dos instrumentos podem ajudar-me a preservar os feixes neurovasculares relacionados com a erecção, desde que a localização e a extensão do tumor o permitam.

Uma revisão comparativa encontrou uma preservação da função eréctil mais favorável após cirurgia robótica do que após laparoscopia aos três, seis e doze meses. Os autores alertam, no entanto, para as diferenças entre os estudos e para a necessidade de interpretar estes resultados com prudência.

Na comparação com a cirurgia aberta, um ensaio clínico não encontrou diferenças significativas na função sexual aos seis, doze ou 24 meses.

Nas minhas consultas, explico que a tecnologia pode criar melhores condições para preservar os nervos, mas o resultado depende também:

  • da função eréctil antes da cirurgia;
  • da idade e da saúde vascular;
  • da localização do tumor;
  • da possibilidade de realizar preservação nervosa com segurança.

O controlo da doença continua a ser prioritário. Quando o tumor está muito próximo dos nervos, preservá-los pode comprometer a remoção adequada do cancro, tal como alertam as orientações da Associação Europeia de Urologia.

Saiba como podemos ajudar na saúde sexual 

A cirurgia robótica é sempre a melhor opção para tratar o cancro da próstata?

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Não existe uma técnica que seja automaticamente a melhor para todos os doentes.

Na escolha, considero:

  • as características e a extensão do tumor;
  • cirurgias abdominais anteriores;
  • o estado geral de saúde;
  • a anatomia do doente;
  • a experiência da equipa em cada abordagem;
  • a tecnologia disponível;
  • as prioridades de quem vai ser operado.

A cirurgia robótica oferece vantagens técnicas importantes. No entanto, uma tecnologia mais avançada não corrige uma indicação inadequada nem substitui a experiência de quem a utiliza.

Como escolher a técnica cirúrgica para o cancro da próstata?

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Antes de decidir, procure perceber por que razão determinada abordagem está a ser recomendada no seu caso.

Na consulta, pode perguntar:

  • Qual é a experiência da equipa em cada técnica?
  • É possível preservar os nervos no meu caso?
  • Que resultados posso esperar para a continência?
  • Como poderá ser afectada a função sexual?
  • Quanto tempo poderá demorar a recuperação?
  • Existem alternativas à remoção da próstata?

No Instituto da Próstata, começamos por avaliar se a cirurgia é a opção mais adequada para tratar a doença. Só depois escolhemos a técnica.

O objectivo não é utilizar o robot por ser a tecnologia mais recente. É escolher a abordagem que permita remover o tumor com segurança e preservar, tanto quanto possível, a continência, a função sexual e a qualidade de vida.

Cada caso deve ser avaliado individualmente. Esclareça as suas dúvidas e conheça as opções mais adequadas à sua situação.

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Sobre o Autor

Dr José Santos Dias

O Dr. José Santos Dias, Director Clínico do Instituto da Próstata, é médico urologista dedicado às patologias da próstata, bem como a outras doenças do foro da oncologia urológica, como o cancro da bexiga e do rim.