Se as três técnicas permitem remover a próstata, o que muda realmente entre uma cirurgia aberta, laparoscópica e robótica?
Esta é uma dúvida frequente quando proponho uma prostatectomia radical. Para o doente, a escolha parece muitas vezes resumir-se ao tamanho das incisões. Na prática, também existem diferenças na forma como observo a anatomia, movimento os instrumentos e trabalho junto das estruturas relacionadas com a continência e a função sexual.
Neste artigo, explico:
- O que distingue a cirurgia aberta, laparoscópica e robótica;
- Que diferenças pode sentir durante a recuperação;
- Como cada técnica pode influenciar a continência e a função sexual;
- Porque a experiência da equipa continua a ser determinante.
Resumo rápido: a cirurgia aberta utiliza uma incisão maior, enquanto a laparoscopia e a cirurgia robótica são realizadas através de pequenas incisões. A cirurgia robótica acrescenta visão tridimensional ampliada e instrumentos articulados. Os estudos associam esta abordagem a menor perda de sangue e internamentos mais curtos, embora os resultados da continência e da função sexual dependam também da experiência da equipa e das características de cada doente.
O que distingue as técnicas cirúrgicas no cancro da próstata?
O objectivo principal é comum: remover a próstata e o tumor de forma adequada, quando existe indicação para uma prostatectomia radical.
O que muda é a forma como acedemos à próstata e realizamos a intervenção.
Cirurgia aberta da próstata
Na cirurgia aberta, o acesso é efectuado através de uma incisão no abdómen inferior.
O cirurgião trabalha directamente através dessa abertura, utilizando instrumentos convencionais e observando a anatomia sem o apoio de uma câmara endoscópica.
Por exigir uma incisão maior, esta abordagem pode estar associada a:
- maior agressão da parede abdominal;
- maior perda de sangue;
- mais dor nos primeiros dias;
- recuperação inicial mais prolongada.
Ainda assim, continua a ser uma técnica válida e pode proporcionar bons resultados quando realizada por uma equipa experiente. Os estudos comparativos não demonstram que a via robótica seja universalmente superior à cirurgia aberta em todos os resultados funcionais ou oncológicos.
Saiba mais sobre cirurgia aberta
Cirurgia laparoscópica da próstata
A prostatectomia laparoscópica é realizada através de pequenas incisões no abdómen.
Por essas aberturas, são introduzidos uma câmara e instrumentos longos. A imagem do interior do corpo é apresentada num monitor, permitindo realizar a cirurgia sem uma incisão abdominal extensa.
A laparoscopia exige uma elevada capacidade técnica. Os instrumentos são rígidos e têm uma amplitude de movimentos mais limitada do que a mão humana ou os instrumentos articulados do sistema robótico.
Na minha prática, esta diferença torna-se particularmente relevante quando trabalhamos numa zona profunda da bacia, onde alguns movimentos precisam de ser realizados com grande precisão.
Cirurgia robótica da próstata
A cirurgia robótica também utiliza pequenas incisões. A principal diferença está na tecnologia disponível para observar e operar.
O sistema fornece:
- imagem ampliada em três dimensões;
- instrumentos articulados;
- maior amplitude de movimentos;
- filtragem de pequenas oscilações involuntárias;
- controlo dos instrumentos através de uma consola.
Sou eu quem realiza e controla cada movimento. O robot funciona como uma extensão das minhas mãos e não toma decisões de forma autónoma.
No artigo “Cirurgia robótica da próstata: o que é, como funciona e como é realizada”, explico em detalhe onde se encontra o cirurgião, como entram os instrumentos e para que serve a imagem tridimensional.
Saiba mais sobre cirurgia robótica
O que muda após a cirurgia ao cancro da próstata?

A cirurgia laparoscópica e a cirurgia robótica são ambas minimamente invasivas, pois utilizam pequenas incisões. Na abordagem robótica, a imagem tridimensional e os instrumentos articulados permitem-me trabalhar com maior liberdade e controlo numa zona anatómica reduzida.
Estas vantagens técnicas tornam-se mais relevantes durante a recuperação e quando procuro preservar as estruturas relacionadas com a continência e a função sexual.
Recuperação após a cirurgia ao cancro da próstata
Comparativamente com a cirurgia aberta, as técnicas minimamente invasivas estão associadas a:
- menor perda de sangue;
- menor necessidade de transfusão;
- menos dor nos primeiros dias;
- internamentos geralmente mais curtos;
- regresso mais rápido às actividades habituais.
Uma revisão de estudos prospectivos concluiu que a cirurgia robótica e a laparoscopia apresentam menor perda de sangue e menor necessidade de transfusão do que a cirurgia aberta. Os resultados oncológicos e as taxas globais de complicações foram, contudo, semelhantes entre as abordagens.
Na consulta, explico que estas diferenças se referem sobretudo à recuperação inicial. O tempo de internamento, de algaliação e de regresso ao trabalho depende também da extensão da cirurgia, do estado geral de saúde e do esforço que realiza no dia-a-dia.
Recuperação da continência urinária
A tecnologia robótica pode ajudar-me a trabalhar com maior precisão junto do esfíncter urinário e dos tecidos que suportam a uretra.
Num ensaio clínico aleatorizado, os doentes submetidos a cirurgia robótica apresentaram uma recuperação da continência mais favorável aos três meses do que os operados por laparoscopia convencional. A idade e a possibilidade de preservar os nervos também influenciaram os resultados.
Quando a comparação é feita com a cirurgia aberta, as diferenças tornam-se menos evidentes ao longo do tempo. Num ensaio clínico aleatorizado com 326 homens, não foram encontradas diferenças significativas na função urinária entre a cirurgia robótica e a cirurgia aberta aos 24 meses.
Por isso, apresento a cirurgia robótica como uma técnica que pode favorecer uma recuperação inicial mais rápida, e não como uma garantia de continência imediata.
Recuperação da função sexual
A imagem ampliada e a precisão dos instrumentos podem ajudar-me a preservar os feixes neurovasculares relacionados com a erecção, desde que a localização e a extensão do tumor o permitam.
Uma revisão comparativa encontrou uma preservação da função eréctil mais favorável após cirurgia robótica do que após laparoscopia aos três, seis e doze meses. Os autores alertam, no entanto, para as diferenças entre os estudos e para a necessidade de interpretar estes resultados com prudência.
Na comparação com a cirurgia aberta, um ensaio clínico não encontrou diferenças significativas na função sexual aos seis, doze ou 24 meses.
Nas minhas consultas, explico que a tecnologia pode criar melhores condições para preservar os nervos, mas o resultado depende também:
- da função eréctil antes da cirurgia;
- da idade e da saúde vascular;
- da localização do tumor;
- da possibilidade de realizar preservação nervosa com segurança.
O controlo da doença continua a ser prioritário. Quando o tumor está muito próximo dos nervos, preservá-los pode comprometer a remoção adequada do cancro, tal como alertam as orientações da Associação Europeia de Urologia.
Saiba como podemos ajudar na saúde sexual
A cirurgia robótica é sempre a melhor opção para tratar o cancro da próstata?

Não existe uma técnica que seja automaticamente a melhor para todos os doentes.
Na escolha, considero:
- as características e a extensão do tumor;
- cirurgias abdominais anteriores;
- o estado geral de saúde;
- a anatomia do doente;
- a experiência da equipa em cada abordagem;
- a tecnologia disponível;
- as prioridades de quem vai ser operado.
A cirurgia robótica oferece vantagens técnicas importantes. No entanto, uma tecnologia mais avançada não corrige uma indicação inadequada nem substitui a experiência de quem a utiliza.
Como escolher a técnica cirúrgica para o cancro da próstata?

Antes de decidir, procure perceber por que razão determinada abordagem está a ser recomendada no seu caso.
Na consulta, pode perguntar:
- Qual é a experiência da equipa em cada técnica?
- É possível preservar os nervos no meu caso?
- Que resultados posso esperar para a continência?
- Como poderá ser afectada a função sexual?
- Quanto tempo poderá demorar a recuperação?
- Existem alternativas à remoção da próstata?
No Instituto da Próstata, começamos por avaliar se a cirurgia é a opção mais adequada para tratar a doença. Só depois escolhemos a técnica.
O objectivo não é utilizar o robot por ser a tecnologia mais recente. É escolher a abordagem que permita remover o tumor com segurança e preservar, tanto quanto possível, a continência, a função sexual e a qualidade de vida.
Cada caso deve ser avaliado individualmente. Esclareça as suas dúvidas e conheça as opções mais adequadas à sua situação.

