«Doutor, isto tem cura?» É uma das primeiras perguntas que muitos homens fazem quando recebem um diagnóstico de cancro da próstata. A resposta pode ser positiva, sobretudo quando a doença está localizada, mas depende do tipo de tumor, da sua extensão e do momento em que foi identificado.
Neste artigo, ficará a saber quando o cancro da próstata pode ter cura, porque é importante detectá-lo cedo e qual a melhor opção terapêutica, para cada doente.
Resumo rápido: quando o cancro da próstata está localizado, podem existir várias opções com intenção curativa, incluindo cirurgia e a radioterapia. Alguns tumores de baixo risco podem, inclusivamente, ser acompanhados através de vigilância activa, sem tratamento imediato. A escolha depende da agressividade e da extensão da doença, da saúde do doente e das funções que se pretende preservar.
O cancro da próstata pode ter cura quando é descoberto cedo?

Sim. Quando a doença está limitada à próstata, existem tratamentos com intenção curativa. O objectivo é eliminar o tumor ou obter um controlo duradouro da doença.
O diagnóstico precoce faz diferença porque, em geral, permite avaliar o cancro antes de se ter disseminado e considerar um maior número de opções terapêuticas.
No entanto, «descobrir cedo» não é suficiente para decidir o tratamento. É necessário perceber:
- Qual é o grupo de risco do tumor;
- Se a doença está limitada à próstata;
- Qual é o seu grau de agressividade;
- Qual é o volume e a localização das áreas afectadas;
- Que impacto pode ter cada opção na vida do doente.
Na consulta explico que uma doença oncológica é muito mais do que a palavra «cancro» que aparece num relatório. O que tratamos é uma doença concreta, com características próprias, num homem com uma determinada idade, um estado de saúde, uma função urinária e sexual, e prioridades que são só dele.
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Porque é que o diagnóstico precoce faz diferença?
O cancro da próstata pode desenvolver-se silenciosamente, sem provocar sintomas, durante anos. Por isso, assumir que só deve procurar ajuda quando há dor, dificuldade em urinar ou outras queixas pode ser arriscado: quando esses alertas surgem, a doença pode já estar numa fase mais avançada. É por isso que a detecção precoce não depende dos sintomas.
É comum chegarem à minha consulta homens que se sentiam bem e descobriram uma alteração através do PSA ou de exames realizados no âmbito da vigilância regular/check-up. Muitos dizem-me que teriam esperado mais tempo, precisamente porque não tinham qualquer queixa.
É nesta fase silenciosa que a avaliação pode ser particularmente útil: permite perceber se existe uma alteração relevante antes de surgirem sinais de doença mais avançada.
Saiba mais sobre os sintomas, os factores de risco e a avaliação do cancro da próstata, neste artigo.
Que tratamentos existem para o cancro da próstata localizado?
A escolha depende da extensão da doença, do grupo de risco, da idade, da saúde globall e das prioridades do doente.
Entre as principais abordagens podem encontrar-se:
- Cirurgia radical robótica: permite remover a próstata e analisar posteriormente toda a peça cirúrgica;
- Radioterapia externa: utiliza radiação dirigida à próstata e, em alguns casos, aos tecidos vizinhos;
- Braquiterapia: administra a radiação directamente na próstata, de forma localizada,em regime permanente ou temporário;
- Vigilância activa: acompanha determinados tumores de baixo risco e adia o tratamento enquanto não existirem sinais de progressão;
- Outras abordagens seleccionadas: podem ser consideradas de acordo com as características do tumor e a experiência da equipa.
A cirurgia e as diferentes modalidades de radioterapia podem ser utilizadas com intenção curativa na doença localizada. A vigilância activa pode ser recomendada para muitos homens com tumores de baixo risco, de forma a evitar ou adiar os efeitos de um tratamento imediato sem deixar de monitorizar a doença.
Algumas destas técnicas são realizadas nas instalações do parceiro do Instituto da Próstata, a Clínica de São João de Deus, em Lisboa, com condições adequadas de bloco operatório e internamento.
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O que significa vigilância activa?
A vigilância ativa é um plano de acompanhamento estruturado, que pode incluir o doseamento periódico do PSA, consultas, ressonância magnética e, quando indicado, novas biópsias. O objetivo é acompanhar tumores com baixa probabilidade de progressão e iniciar tratamento apenas se surgirem alterações relevantes.
A evidência de longo prazo mostra que, na doença localizada detectada por PSA, a mortalidade específica por cancro da próstata é baixa com qualquer das estratégias — vigilância, cirurgia ou radioterapia.
Ainda assim, a progressão local e o aparecimento de metástases são mais frequentes na vigilância do que após tratamento radical. É precisamente por isso que a seleção dos doentes e o rigor do acompanhamento são determinantes.
O suporte para esta estratégia é um ensaio clínico chamado ProtecT que mostrou que aos 15 anos de seguimento, a sobrevida específica por cancro da próstata foi de cerca de:
- 96,6% na vigilância ativa;
- 97,2% na prostatectomia;
- 97,7% na radioterapia.
Sem se verificar diferença significativa entre estes grupos.
Em contrapartida: a progressão local e a incidência de metástases foram mais elevadas no grupo de vigilância ativa. Convém notar ainda que 61% dos homens inicialmente colocados em vigilância ativa acabaram por fazer tratamento radical ao longo de 15 anos.
Estes dados reforçam a ideia de que vigilância não é «não fazer nada», mas monitorizar para intervir a tempo.
Como escolho o tratamento para o cancro da próstata mais adequado?
Depois de confirmar o diagnóstico, procuro compreender que doença temos pela frente e que consequências cada decisão pode ter para aquele homem.

Avalio:
- O PSA e a sua evolução;
- O resultado da biópsia e o grupo de grau;
- A extensão e a localização do tumor;
- Os exames de estadiamento;
- A idade e o estado de saúde;
- A função urinária e sexual antes do tratamento;
- As expectativas e prioridades do doente.
Perante diagnósticos semelhantes, dois homens podem tomar decisões diferentes. Um pode valorizar mais a possibilidade de evitar uma intervenção imediata.
Outro pode sentir-se mais seguro se for tratado desde logo. Para alguns, a continência e a função sexual são preocupações centrais; para outros, pesam mais o tempo de recuperação e a logística do tratamento.
A recomendação clínica tem de ser proporcional à agressividade da doença e fazer sentido para a vida real do doente.
É possível tratar o cancro da próstata e preservar a qualidade de vida?
Esse é sempre um dos objectivos, mas é importante responder com realismo. Qualquer tratamento pode ter efeitos na função urinária, sexual ou intestinal, e o tipo e a intensidade desses efeitos variam.
A cirurgia pode ter maior impacto inicial na continência e na função eréctil. A radioterapia pode afectar a função urinária, intestinal e sexual, por vezes de forma mais gradual.
Os resultados dependem também da idade, da função prévia, da localização da doença e da técnica utilizada.
Estudos comparativos mostram que a cirurgia, a radioterapia e a monitorização activa têm perfis diferentes de impacto na função urinária, sexual e intestinal. Por isso, a escolha do tratamento deve considerar não só o controlo da doença, mas também os efeitos funcionais esperados.
Nas minhas consultas, não falo apenas da probabilidade de controlar o tumor. Explico também:
- Como pode decorrer a recuperação;
- Que alterações podem surgir;
- Quanto tempo podem durar;
- Que estratégias de reabilitação existem;
- Que funções são prioritárias para o doente.
Preservar a qualidade de vida significa planear o tratamento com precisão, antecipar possíveis consequências e acompanhar o doente também depois da intervenção.
Depois do diagnóstico, qual é o passo seguinte?
O primeiro passo é perceber exatamente o que foi diagnosticado. Nem todos os cancros da próstata têm a mesma agressividade nem exigem a mesma rapidez de intervenção.
Antes de decidir, deve procurar esclarecer:
- Se o tumor está localizado;
- Qual é o seu grupo de risco;
- Se precisa de tratamento imediato;
- Que opções são adequadas ao seu caso;
- Que impacto pode ter cada uma;
- Como será feito o acompanhamento.

O que deve saber antes de tomar uma decisão sobre o tratamento do cancro da próstata?
Não precisa de sair da primeira consulta com todas as decisões tomadas. Precisa de sair a compreender o diagnóstico, os próximos passos e as razões por detrás de cada recomendação.
Tem um diagnóstico de cancro da próstata ou dúvidas sobre as opções de tratamento? Marque uma consulta no Instituto da Próstata para esclarecer o seu caso e definir uma estratégia adaptada à doença, à sua saúde e às suas prioridades.
Referências
Hamdy FC, Donovan JL, Lane JA, et al. Fifteen-Year Outcomes after Monitoring, Surgery, or Radiotherapy for Prostate Cancer. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2214122
Donovan JL, Hamdy FC, Lane JA, et al. Patient-Reported Outcomes after Monitoring, Surgery, or Radiotherapy for Prostate Cancer. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27626365/
Puliyath N. Fifteen-year outcomes of the ProtecT trial: Should patients be “protected” from radical treatments? Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10704979/

