O cancro da próstata pode desenvolver-se durante anos sem provocar dor, dificuldade em urinar ou qualquer outra alteração perceptível. É por isso que muitos homens ficam surpreendidos quando uma análise de rotina revela um PSA alterado: sentem-se bem e não imaginam que possa existir uma doença.
Nas minhas consultas, explico frequentemente que a ausência de sintomas não permite excluir um diagnóstico de cancro da próstata. O importante é avaliar o risco de cada homem e interpretar os exames no seu contexto.
Com este artigo, ficará a saber:
- Porque o cancro da próstata pode não provocar sintomas;
- Que sinais podem surgir numa fase mais avançada;
- Quais são os principais factores de risco;
- Porque os sintomas urinários não significam necessariamente cancro;
- Como são utilizados o PSA, o exame clínico, a ressonância e a biópsia;
- Em que situações deve procurar uma avaliação urológica.
Resumo rápido: o cancro da próstata é frequentemente silencioso nas fases iniciais. O risco aumenta sobretudo com a idade, os antecedentes familiares e determinadas alterações genéticas hereditárias. A avaliação pode incluir PSA, exame clínico e ressonância magnética, mas o diagnóstico só pode ser confirmado através da análise de tecido obtido por biópsia.
O cancro da próstata dá sempre sintomas?
Não. Na maioria dos casos, o cancro da próstata localizado não provoca sintomas. Por isso, sentir-se bem não significa necessariamente que não existam alterações na próstata.
Esperar por dor ou dificuldade em urinar pode atrasar a avaliação. O objectivo da vigilância não é procurar uma doença indiscriminadamente, mas identificar os homens que apresentam maior risco e perceber quem precisa de investigação adicional.
Que sinais podem surgir numa fase mais avançada?
Quando a doença se encontra numa fase mais avançada, podem surgir:
- Sangue na urina;
- Sangue no sémen;
- Dificuldade crescente em urinar;
- Dor persistente nas costas, na bacia ou nos ossos;
- Perda de peso ou cansaço sem causa aparente.
Estes sintomas não são exclusivos do cancro da próstata. Podem ter outras causas, mas justificam uma avaliação médica, sobretudo quando persistem.
Nas minhas consultas, é comum receber homens que adiaram a avaliação porque não sentiam dor nem alterações evidentes. Muitos associam o cancro a um sinal claro do organismo. No caso da próstata, esse sinal pode não surgir numa fase precoce.
Saber mais sobre Cancro da Próstata
Quem tem maior risco de desenvolver cancro da próstata?
Não existe uma causa única. No entanto, há factores que justificam uma vigilância mais atenta:
- Idade: o risco aumenta ao longo dos anos;
- História familiar: sobretudo quando um pai, irmão ou outro familiar próximo teve cancro da próstata, em especial numa idade jovem;
- Predisposição hereditária: pode estar associada a alterações genéticas, como as mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, ou a casos de cancro da mama, do ovário, do pâncreas e da próstata na mesma família.
Quando avalio um doente, não me limito ao resultado do PSA. Faço uma anamnese detalhada, pergunto quem teve cancro na família, que tipo de tumor foi diagnosticado e com que idade. Um único detalhe na história familiar pode alterar a idade em que iniciamos a vigilância ou a frequência com que repetimos os exames.
O excesso de peso, a falta de actividade física e outros hábitos também devem ser considerados no contexto da saúde global. Contudo, têm menos peso clínico do que a idade, a história familiar ou uma alteração genética hereditária na definição do risco individual.
Ter sintomas urinários significa ter cancro da próstata?
Não. Dificuldade em iniciar a micção, jacto urinário fraco, urgência ou necessidade de acordar durante a noite estão frequentemente relacionados com Hiperplasia Benigna da Próstata.
Para saber mais, leia também: Hiperplasia Benigna da Próstata: sintomas e tratamentos para a próstata aumentada.
Para esclarecer os meus doentes, explico esta diferença:
- Um homem pode ter sintomas urinários intensos e não ter cancro;
- Outro pode ter cancro da próstata numa fase inicial sem sentir qualquer alteração.
Por isso, a decisão de investigar não deve depender apenas dos sintomas.
Como é avaliado o risco de cancro da próstata?
A avaliação começa na consulta. Tal como referi acima, considero a idade, os antecedentes familiares, os resultados de exames anteriores, o estado geral de saúde e a existência de sintomas.
O PSA elevado significa que existe cancro?

Não. O PSA é uma proteína produzida pela próstata e o seu valor pode aumentar devido ao cancro, à HBP, a uma inflamação, a uma infecção ou a outras situações.
Mais importante do que interpretar um número isolado é perceber a sua evolução ao longo do tempo e relacioná-lo com a idade, o volume da próstata, os antecedentes familiares e o exame clínico.
O toque rectal também faz parte da avaliação. Permite identificar alterações na consistência ou na forma da próstata que não são reveladas apenas pela análise ao sangue.
Quando recomendo estes exames, explico sempre ao doente o que estamos a procurar. Um PSA alterado é um sinal que pode exigir investigação; não é por si só um diagnóstico de cancro.
Para que serve a ressonância magnética da próstata?

Quando existe suspeita clínica, a Ressonância magnética multiparamétrica pode ajudar a identificar áreas da próstata que merecem ser investigadas e a estimar a probabilidade de existir uma lesão clinicamente significativa.
A ressonância permite-nos decidir com maior rigor:
- Se é necessário continuar a investigação;
- Que zona da próstata deve ser estudada;
- Como orientar uma eventual biópsia;
- Se, em determinadas situações, podemos evitar procedimentos desnecessários.
No entanto, uma imagem suspeita não confirma o diagnóstico. Quando é necessário saber se existe cancro e qual é a sua agressividade, pode ser indicada uma biópsia prostática.
As estratégias actuais combinam o PSA, a avaliação do risco e a ressonância, reservando a biópsia para as situações em que é clinicamente necessária.
Porque é importante explicar cada passo ao paciente?
Interpretar correctamente os valores e os resultados dos exames é fundamental para chegar a um diagnóstico. Mas saber explicá-los ao doente é igualmente importante.
Quando apresento um resultado, procuro esclarecer o que permite concluir — e também aquilo que ainda não permite afirmar. Um valor alterado deve ser analisado em conjunto com os restantes dados antes de decidirmos se é necessário repetir uma análise, realizar uma ressonância ou avançar para uma biópsia.

Gosto que os meus doentes compreendam cada etapa, saibam o que podem esperar e sintam confiança no processo. Um doente bem informado enfrenta as decisões com expectativas mais realistas, menos ansiedade e a certeza de que está a ser acompanhado com rigor, proximidade e atenção.
Quando devo marcar uma consulta de urologia?
Se tem antecedentes familiares de cancro da próstata, uma alteração no PSA ou dúvidas sobre quando deve iniciar a vigilância, marque uma consulta de urologia.
Mesmo sem sintomas, a avaliação pode ser importante quando existe um maior risco familiar. E, se apresenta sangue na urina ou no sémen, dor persistente ou alterações urinárias recentes, não deve adiar a investigação.
No Instituto da Próstata, avaliamos o seu risco individual e definimos os exames e o plano de vigilância mais adequados ao seu caso.
Referências
European Association of Urology. EAU Guidelines on Prostate Cancer – Diagnostic Evaluation. Disponível em: https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/diagnostic-evaluation
National Cancer Institute. Prostate-Specific Antigen (PSA) Test. Disponível em: https://www.cancer.gov/types/prostate/psa-fact-sheet
National Cancer Institute. Genetics of Prostate Cancer (PDQ®) – Health Professional Version. Disponível em: https://www.cancer.gov/types/prostate/hp/prostate-genetics-pdq

